quarta-feira, 25 de março de 2020

Trilogia Emmanuelle: Análise

Final do mês passado assisti a trilogia de Emmanuelle com Sylvia Kristel. É a primeira vez que assisto esses filmes em sequência e, dessa vez, ficou ainda mais marcada a impressão que eu já possuía sobre eles:  para mim não são meros filmes eróticos ou pornôs soft-core, são filmes filosóficos elucubrando sobre o amor livre.

Comprei Emmanuelle e Emanuelle: a antivírgem nas lojas Americanas.
Adeus Emmanuelle eu comprei em: http://www.eovideolevou.com.br/

EMMANUELLE

No primeiro temos Emmanuelle, a virgem – não que ela seja realmente virgem no início desse filme, mas carrega uma certa inexperiência sobre esse novo modo de vida junto ao seu marido Jean (Daniel Sarky), que permite amar, ou melhor dizendo, transar com quem quiser, sendo livre e espontânea sua escolha.

Quase todos envolta de Emmanuelle, no entanto, parecem pessoas fúteis: esposas de maridos ricos que não tem nada para fazer e usam esse modo de vida como forma de aliviar o tédio. Apenas Jean e Marie-Ange (Christine Boisson) parecem carregar de fato um sentimento de espírito livre, com Jean entendendo que ele não possuí sua esposa, não é seu dono, portanto ela tem a liberdade de transar como quem ela desejar. Marie-Ange parece ser uma libertária nata e carrega os entendimentos sobre o amor livre de uma forma praticamente natural.

Até que a personagem principal entrega não só seu corpo, mas seu coração a uma arqueóloga chamada Bee (Marika Green), a única das mulheres europeias em Bangkok que não parece ser fútil, visto que também é a única que possui uma vida ocupada. Dizer que seu nome demonstra sua personalidade trabalhadora não é uma digressão sem sentido, a relação é deixada explícita no próprio filme.

O amor de Emmanuelle por Bee é, talvez, um dos pontos mais marcantes do filme. Em minha interpretação mostra como heroína ainda não consegue, de certa forma, separar o sexo do amor. Ela tem a capacidade do poli-amor, visto que não deixa de amar Jean para amar Bee, mas sua necessidade sexual por ela está diretamente ligada ao romantismo, ao amor das pessoas comuns. Isso fica evidente quando Emmanuelle revela seu amor, mas Bee não corresponde. Ainda que seja colocada à margem do grupo de adeptos ao amor livre, ela não relaciona sua atração sexual por Emmanuelle a um amor passional. Bee entende que seu sentimento é a atração pela carne.

Outro motivo que faz esse evento ser tão importante é a reação de Jean que, muito embora seja adepto do amor livre, sente-se traído por Emmanuelle. Jean carrega todas as mágoas de um homem traído. Sentindo-se solitário vai a um bordel e se mete em uma briga contra um bêbado, depois vai chorar suas mágoas com Ariane (Jeanne Colletin) que, primeiramente, diz sentir repulsa desse comportamento mesquinho de Jean e, em seguida, diz que pelo contrário, aquilo é motivo de riso para as pessoas de seu pequeno grupo.

Esse evento demonstra que tanto Emmanuelle quanto seu marido precisam evoluir para alcançar a plenitude nesse estilo de vida.

Após isso Jean precisa viajar a negócios e Emmanuelle é deixada aos cuidados de Mario, um homem mais velho que faz o papel do mentor na jornada da nossa heroína. Mario guia Emmanuelle numa espécie de ritual pagão composto por sexo, ópio e estupro. Após superar esse ritual, a heroína volta ao lar, pronta para se entregar ao Mario que ainda a rejeita, dizendo não querer transar com ela, mas com a nova Emmanuelle na qual ela irá se transformar. A protagonista é deixada a só em seu quarto e ela começa a se produzir com maquiagens e roupas finas, mostrando agora, de frente ao espelho, um rosto mais maduro.

EMMANUELLE: A ANTIVÍRGEM

Não sei se há muito o que interpretar sobre o segundo filme. Na minha opinião sua história é banal em relação aos outros, mas necessária para que se chegue à conclusão. Duas coisas me intrigam nesse filme:

1º porque trocaram o ator que interpreta Jean, que deixou de ser Daniel Sarky e passa a ser Umberto Orsini

2º porque mudaram a profissão de Jean de diplomata para arquiteto (apenas sugerido nesse filme, mas deixado explícito no próximo).

Essas incoerências me incomodam, porque ou demonstram uma inaptidão em manter a história coerente ou demonstram um desrespeito ao filme anterior, que – sendo a obra prima que é – não merece ser ignorado.

Passada a evolução pessoal em Bangkok na qual ela busca internalizar o conceito de uma vida realmente livre, Emmanuelle acompanha seu marido para Hong Kong. Emmanuelle agora é a antivírgem. Ela e seu marido estão completamente livres, deixando para trás os ciúmes e preconceitos de outrora para viver na plenitude de seu amor, sem ciúmes e narrando um para o outro suas aventuras sexuais na intenção de manter a sinceridade no casamento.

Em dado momento Emmanuelle parece sentir ciúme por Jean ter transado com outra, no entanto fica incerto se foi pela transa, ou se foi pelo lugar em si, pois a heroína reclama com seu marido que com essa outra mulher ele transou no mar, mas com ela mesma o máximo que tiveram foi transar em uma banheira. Emmanuelle parece ter sentido como se as outras comessem do melhor fruto, enquanto ela – na condição de esposa – ficou com as sobras. Não é algo muito importante para esse filme, visto que esse tema não é desenvolvido, mas é um elemento importante para o próximo filme.

Fora isso não acho que há muito mais sobre o que falar. Não é um filme muito substancial.

ADEUS EMMANUELLE

Aqui fecha-se a obra. Pelo menos para mim que desconsidero os filmes seguintes que não são estrelados pela Sylvia Kristel. Se o segundo filme tem o subtítulo de a anti-virgem, este deveria ser chamado de a anti-Emmanuelle.

O tema principal aqui são as hipocrisias e o tema do amor livre é colocado em cheque, mas não necessariamente em um cheque-mate. Jean (ainda Umberto Orsini) vai se mostrando mais hipócrita, principalmente em relação a um casal amigo em que a esposa Clara (Sylvie Fennec), para agradar o marido, tenta, mas não consegue, seguir o estilo de vida livre de Emmanuelle. Mais tarde o casal surge novamente reatado e Jean começa a mostrar uma faceta machista, culpando Clara pelo insucesso do casamento e julgando que Clara provavelmente usou os filhos para trazer o marido de volta. Emmanuelle, por outro lado, mostra-se irritada com o machismo de seu esposo e preocupada com o destino do casamento de sua amiga.

Porém,  o relacionamento aberto da personagem título e Jean fica abalado com a chegada de Gregory (Jean-Pierre Bouvier), um diretor de cinema que vai a Seicheles procurar um bom cenário para rodar seu filme. Gregory se coloca contrário à ideologia do erotismo. Emmanuelle se sente imediatamente atraída por ele, e o procura intensamente até conseguir transar com ele, contudo, após a transa, Gregory a trata como uma prostituta.

Gregory diz que só consegue amar uma mulher de cada vez. No entanto, seu passado o condena, como narrado por outra personagem. Ele tentara um relacionamento aberto com sua ex-esposa, mas a mulher tentou suicídio quando ele a contou sobre suas amantes, tempo depois, após melhorar, sua ex-esposa o abandonou para se casar com o médico que salvou sua vida.

Os dois fazem as pazes depois, o que provoca ciúmes em Jean, que começa a usar da mentira e da violência física para manter Emmanuelle ao seu lado e quase consegue, se Chloe, amiga de da heroína com sua própria trágica e hipócrita história, não contasse a Emmanuelle sobre as mentiras de Jean, induzindo-a a ir embora para a França em busca de Gregory.

Ao partir de Seicheles, Clara comenta com Emmanuelle que Jean só a deixava livre para guardá-la, para tê-la sempre por perto, que é igual a todos os homens, só que mais esperto. Ainda que não negando a possibilidade, dizendo que os foram felizes vivendo da forma que viveram foi bom e procuraram ser realmente sinceros. Quanto ao seu futuro com Gregory, ela sabe que tanto pode dar certo, quanto pode dar errado, afinal ela mal o conhece. A única forma de saber como será o seu futuro é não recuar e ir atrás dele. Jean termina com Chloe como sua companheira, mas com a certeza que a monotonia da vida comum irá trazer sua esposa de volta.

O filme deixa um gosto de que mesmo a mais extrema liberdade pode se tornar uma prisão e pode se tornar cansativa. As palavras de Clara sobre Jean são ecoantes. Talvez Jean fosse sim um manipulador, dando liberdade sexual a sua esposa apenas para suprir as próprias fantasias sexuais e mantê-la por perto. Só que Gregory não é menos hipócrita, ao dizer que só consegue amar apenas uma mulher de cada vez, visto que, quando ainda estava com sua ex-esposa, teve amantes.

Tudo o que resta, no fim das contas, de sincero, é Emmanuelle em sua intensa busca pela liberdade com a certeza de que a única forma de consegui-la é sempre correr atrás do novo, sem se deixar prender pelas amarras do medo. Emmanuelle se despede, de sua amiga, do público e de sua vida antiga, mas com a certeza de que sempre há tempo de recomeçar.

VEREDITO

Como eu sugeri antes, para mim esses filmes formam uma trilogia filosófica sobre liberdade do amor.

A princípio temos uma personagem ingênua e inexperiente, tanto sobre o erotismo como sobre o amor e a própria liberdade. Emmanuelle recebe um tratamento de choque em que aprende a redescobrir o prazer que reside no próprio corpo. Sexo não é apenas sexo, nem é sinônimo de amor, mas é um culto, uma arte e por essa causa não deve ser suprimido, reprimido, escondido nem temido, mas sim apreciado livremente.

A seguir a vemos gozar dessa sua nova liberdade, dedicando seu amor e seu sexo à quem ela desejar. Perpetuando e ensinando essa sua filosofia de vida às novas gerações.

Por fim, Emmanuelle já livre e gozando da liberdade se descobre prisioneira da própria filosofia. E quando uma linha de pensamento se torna velha e desgastada é preciso procurar outra coisa, se despir das hipocrisias e procurar sempre aquilo que lhe é novidade. E o novo é sempre o desconhecido. Como afirma a personagem de Sylvia Kristel no fim do 3º filme ao ser perguntada por Clara sobre Gregory: "Não sei, mal o conheço, talvez seja um tirano. Eu verei". Gregory representa esse futuro novo e nebuloso, talvez essa novidade não dê certo, mas também pode ser que ali se esconda a continuidade da alegria e só existe uma forma de descobrir.

Afinal, como dizia o poeta, aquele rapaz latino americano sem dinheiro no banco e vindo do interior: "O que algum tempo era jovem, novo, hoje é antigo. E precisamos todos rejuvenescer".

domingo, 1 de dezembro de 2019

Dreaming Sarah: Análise

Comprei na Splitplay, mas como essa webstore não existe mais, deixo outros links:

Seria a vida um sonho?

Dreaming Sarah é, antes de tudo, um sonho tornado realidade. Fruto de André Chagas Silva, com música de Anthony Septim e arte adicional de Amber Coal.

Não sei se há muito o que dizer, sem que se possa estragar a história, mas de forma bem genérica, é um game surrealista inspirado em Yumi Niki. Tal como as pinturas de Salvador Dali e outros dos seus contemporâneos, tudo em Dreaming Sarah evoca um sonho e, se não fosse pela descrição do jogo em sua storepage, as maiores certezas sobre a história seriam duvidosas.

A única certeza é que a personagem principal está em coma por causa de um acidente e nosso objetivo é fazê-la acordar desvendando quebra-cabeças ao explorar este sonho. Apesar de não ser, de forma alguma, um jogo de terror tem diversos momentos sombrios. Os diálogos risíveis, que beiram à infantilidade, acentuam o caráter surreal da história.

PRÓS

  • História. Não vou entrar em muitos detalhes neste momento, mas justamente por se tratar de uma história surreal, ela está aberta há infinitas interpretações.
  • Finais diferentes. Existem dois finais. Um não é muito diferente do outro, visto que muda apenas um detalhe, mas é o suficiente para mudar sua percepção da história.
  • Exploração. De forma geral esse game segue bem o estilo que chamam de metroidvania. Muitas vezes, em momentos posteriores, é preciso passar por lugares já explorados pois haverá novos elementos. Isso adiciona muito à exploração.
  • Quebra-cabeças. Os quebra-cabeças te fazem pensar, mas não como certos sem noção como certos adventures (leia-se Machinarium).
  • Clima. A ambientação é muito boa. Ora tem um clima quase infantil, ora adquire tons cada vez mais sombrios.
  • Trilha sonora. A trilha sonora é um espetáculo à parte. Ela contribui perfeitamente para os tons sombrios e lúgubres que o game vai adquirindo ao longo da jogatina, sempre mantendo o caráter de surrealidade. A trilha, felizmente, vem junto com o game, mas se quiser contribuir é possível comprar através do bandcamp do compositor. Também há outro álbum com músicas para piano solo inspiradas inspiradas no jogo.
CONTRAS
  • Pixel art. Para muita gente isso pode não ser um ponto negativo. No meu caso, normalmente acho que a arte em pixels desvaloriza a arte geral do jogo e poderia ser substituída por desenho tradicional. E acredito que é o caso de Dreaming Sarah. Eu sempre fico imaginando como esse game seria visualmente se tivesse sido desenhado à moda de Rayman Origins, Jotun, The Bridge. De qualquer forma eu não condeno de forma alguma a escolha do artista, pois como não sou desenvolvedor, não conheço as dificuldades que existe em se fazer um game com arte desenhada nem as facilidades da arte em pixels.
  • Controle. Há um pequeno bug no controle, mas nada que realmente afete a experiência. Apesar de ter suporte total com o controle, as mensagens tutoriais continuam mostrando os comandos para teclados ao invés de mostrar os do controle.

ANÁLISE DA HISTÓRIA

Dizem que os sonhos é nossa mente reorganizando nossas lembranças, nossos traumas, as informações que recebemos no dia, em suma... reorganizando a si mesma.

Se for assim, há muito se passando pela cabeça de Sarah. Qual o motivo real do seu coma? Sim, eu sei, ela sofreu um acidente, mas que tipo de acidente? Foi mesmo um acidente?

Em dado momento Sarah vê um doppelganger caído ao chão ao lado de um carro cujo para-brisa está quebrado. Da primeira vez que joguei imaginei que ela estivesse dirigindo, bateu o carro e voou pela janela para a rua. A incongruência de sua posição em relação ao carro eu creditava aos limites de um jogo em 2D.

Jogando outra vez, no entanto, mil outras possibilidades passaram por minha cabeça. Reparei, por exemplo, que o para-brisas parece estar trincado e não completamente quebrado, como estaria se uma pessoa fosse arremessada para fora do carro.

Existem coisas sombrias na mente de Sarah. Um gato lobotomizado em uma casa fantasma, um suco de laranja podre ou envenenado, uma sereia morta, uma bala de revolver, uma pianista depressiva, uma criança que ao entrar em uma boate provoca uma chacina. Seriam esses sonhos frutos de traumas antigos? O que eles realmente dizem sobre a psiqué de Sarah?
Vi interpretações dizendo que o estrago no para-brisa teria sido causado por uma bala de revolver ou pela cabeça de Sarah batendo contra ele.

Particularmente excluo a bala de revolver como possibilidade, visto que durante o jogo essa bala evoca um suicídio, não um acidente. Quanto a cabeça batendo no para-brisa, essa se aproxima à minha primeira interpretação, mas por que Sarah está numa posição tão estranha em relação ao carro? Hoje não posso mais julgar que é apenas uma limitação do gênero. Preciso considerar como um elemento da história.

Teria então Sarah saído do carro e se rastejado até desmaiar por completo?

Ou talvez ela estivesse andando a pé quando foi atingida por aquele fusca vermelho. Seu corpo é jogado contra o vidro, sua cabeça atinge a lataria e então, quando o carro pára, a própria inércia a arremessa para outro lugar.
Ou talvez a pianista suicida seja um avatar da própria Sarah. Talvez Sarah, deprimida e afligida com esses pensamentos de morte e assassinato quisesse a morte.

Um suicídio é novamente evocado quando, ao se aproximar de uma ponte, uma senhora pergunta se é isso mesmo que ela quer, pois é um caminho sem volta. A própria Sarah, afligida, pode ter se jogado sobre um carro ou se jogado de um viaduto, caído em um carro e sido arremessada para longe.

No fim das contas, nós pulamos. Pulamos da ponte, mas dessa, ao invés de Sarah pular da vida para a morte, tendo ou não flores ao lado de sua cama, ela pula do coma para a vida, acordando sã em um hospital.

Ou pode não ser nada disso, quando outras idéias surgirem em uma jogatina diferente.

VEREDITO

Em Dreaming Sarah tudo é incerto. A única certeza é que é um jogo inspirador.

Tal como Another World, Prince of Persia e outras obras primas, Dreaming Sarah é um desses frutos da paixão de uma só pessoa. É um desses que me fazem pensar: será que um dia eu consigo? E, se eu já não tivesse diversos projetos solitários para ocupar minha mente, certamente eu me inspiraria nessas obras primas para criar o meu próprio game.

Como eu disse anteriormente, o clima e diálogos começam quase infantis e vão adquirindo tons sombrios à medida que jogamos. A combinação desses diálogos de livros de alfabetização com o caráter sombrio e por vezes fúnebre das imagens e da trilha sonora, contribui com a surrealidade da história e da ambientação.

É um game para se jogar devagar, mais de uma vez e para pensar sobre ele.